Saúde, Estado e Mercado
Djalma Freire
Fiquei impressionado. Imaginei que mesmo com os avanços ocorridos no sistema de seguridade social da Espanha, haveria uma espera de uma ou duas semanas. Eu já havia gostado da rapidez no cadastramento para assistência médica. Primeiro, a inscrição de residência, feita na Prefeitura. Depois, com essa inscrição, o cadastro de assistência social na policlínica mais próxima de minha residência. Tudo rápido, perfeito, sem problemas. Agora a marcação da consulta. Bom, vamos ver amanhã, o atendimento, pensei. Dia seguinte, perto de 12 horas, estava novamente na policlínica. O elevador me deixou no terceiro andar e procurei a sala do Dr. Escoda. Uma plaqueta resolveu meu problema, indicando seu consultório. Entrei numa ante-sala, bastante longa, com bancos forrados em lâminas claras de madeira, design moderno, de bom estilo, com encosto, para quatro pessoas cada um, colocados um defronte do outro. Distribuíam-se ao longo da sala, em frente de mais ou menos uns dez consultórios médicos. Sentei-me num banco próximo ao consultório do Dr. Escoda e esperei. Pouco depois a porta do consultório abriu, um senhor alto, meia idade, com bata de médico, olhou uma ficha e falou: “- Sr. Borges!” Fiz sinal que era eu e ele me mandou entrar. Sentei à sua frente, em sua mesa de trabalho, e disse-lhe que eu estava na Espanha há poucos meses, iria ficar mais oito, e que tomava continuamente alguns medicamentos prescritos por meus médicos, no Brasil, e que necessitava de uma prescrição nova para adquiri-los nas farmácias. Exibi as receitas. Examinou-as e disse: “- Entendi. Vou lhe dar uma prescrição para dois meses. Quando os medicamentos estiverem terminando, volte aqui e lhe darei outra para mais dois meses.” Digitou alguns dados no teclado do computador, a seu lado, imprimiu as receitas, assinou, e me entregou: duas requisições para cada um dos três medicamentos que eu necessitava. Agradeci e saí. Estava satisfeito. Atendimento rápido, perfeito, sem complicações burocráticas. Agora era comprar os remédios e pronto, tudo terminado. Dirigi-me à farmácia mais próxima, que no meu caso, para felicidade minha, fica no andar térreo de meu prédio. Fui ao balcão e apresentei as receitas, informando que queria adquirir aqueles medicamentos. A senhora que me atendeu olhou as receitas, abriu algumas gavetas numa salinha ao lado, retirou os remédios e voltou ao balcão. Pegou uma tesoura, cortou o lado das caixinhas com o código de barras, colou num espaço determinado das receitas e pediu para eu assinar. Assinei e indaguei: “- Quanto custa?” Respondeu: “- Não, os remédios são grátis, em função de sua idade.” Fiquei besta! Eu vinha comprando aqueles medicamentos no Brasil há anos, sempre pagando alto, pois dois deles eram muito caros. Impossíveis para assalariados de baixa renda. E agora, num país estrangeiro, sem nenhuma contribuição minha anterior para seu sistema de assistência social, os medicamentos me eram entregues gratuitamente. Contei à minha mulher, discutimos o caso, consultamos a legislação específica e entendemos. Na Espanha, a reforma do sistema nacional de saúde pública vem sendo efetuada ao longo do tempo, progressivamente, em particular por governos do Partido Socialista e Operário Espanhol, com descentralização e poder para as comunidades autônomas, simplificação de procedimentos de assistência à saúde e instituição de gratuidade no fornecimento de remédios para maiores de sessenta anos. Não precisa contribuição prévia nenhuma, não precisa ser cidadão espanhol, basta residir na Espanha. Afirma-se assim uma concepção generosa, humanista, solidária, de proteção do ser humano, da vida humana. O entendimento é que a saúde é direito do cidadão e dever do Estado. O Estado espanhol gasta uma enorme soma de recursos, retirados do orçamento público, dos impostos pagos pelo povo, com a saúde da população. Na área de medicamentos, além do fornecimento gratuito para os maiores de sessenta anos, há um desconto de 60% no preço dos remédios para os demais cidadãos, apenas com a apresentação da receita médica. O Estado assume a diferença. O princípio essencial é o da igualdade, da equidade, da justiça social, do bem-estar.
A oposição, representada pelos liberais do Partido Popular da Espanha, uma espécie de Democratas no Brasil, não está satisfeita. Em seu entendimento, a saúde é um bem que pode ser perfeitamente atendido pelo mercado. Para eles, melhor seria para o desenvolvimento da Espanha e a saúde de sua população, se o cidadão pagasse pela sua demanda de serviços de saúde. Isso estimularia a atividade produtiva, geraria emprego e renda, e permitiria uma redução dos impostos pagos pelo povo, com conseqüente estímulo à atividade empresarial. O orçamento público seria reduzido, haveria equilíbrio nas contas públicas e não déficit como ocorre atualmente. A norma para eles não é o direito à saúde. A norma é o atendimento pelo mercado de tudo aquilo que, legalmente, pode ser precificado e vendido no mercado. Essa é a diferença fundamental. O princípio essencial é o da economicidade, da produtividade, da rentabilidade, da lucratividade. Acho que não preciso dizer qual o meu lado, nesta questão. E você, qual é o seu lado?